1999...e o pénis voador!

1999... E O PÉNIS VOADOR (FRAGMENTO)

 

Ficha Técnica:

Autoria - Miguel Moreira

Direcção - Miguel Moreira (Fragmento)

Assistente de Direcção - Ana Vicente (Fragmento), Sara de Castro

Espaço Cénico - Jorge Moreira

Elementos Cenográficos - Nuno Melo, Nuno Miguel

Dramaturgia - Nicolas Brites, Ana Vicente, Miguel Moreira

Desenho de Luz - Celestino Verdades

Desenho de Som - Fernando Figueiredo

Música original - Fernando Figueiredo, Boomerang, Carlos Bica

Figurinos - Sophie Fernandes

Movimento - Félix Lozano

Intérpretes e Co/criadores - Amílcar Azenha, Carlos António (Fragmento), Pepe Velasco (Fragmento), André Louro, Carla Ribeiro (Fragmento), Amândio Pinheiro (Fragmento), Susana Vidal (Fragmento), Clara Marchana Gonçalo Amorim (Fragmento), Ana Brandão (Fragmento), José Pedro Garcia, Nuno Patrício, Henrique Figueira, Ludgar Lamers (Fragmento), Luís Câmara, Hugo Xavier, Luís Carolino, Maria João Pereira (Fragmento), Daniel Morgado, Marta Ferreira (Fragmento), Hugo Meneses, Sandra Barata

Design Gráfico - Rui Lopes Alves

Fotografia - Tânia Simões

Vídeo - Ivo Ferreira

Pesquisa Literária - Susana Durão

Direcção de Produção - Ana Alves

Produção Executiva - Filipa Hora, Tiago Costa (Fragmento), Luís Câmara

 

 

Memória Descritiva:

 

Primeiro era só estar sentados. Enfiados nos maples. Afundávamo-nos mais ainda.  Depois eu evadia-me do real, do quotidiano e ia para outro lado, para outros lados.  Também levava elementos do dia-a-dia: torradas com Becel e bolas de Berlim.  E, no fundo é sempre essa coisa. Essa procura. Essa coisa… O que é ser feliz ? Isso, de ser feliz ?  Sou feliz mas, há dias em que não te vejo e não te toco e o meu corpo treme.  E eu finjo que não treme e riu-me muito e como torradas com Becel para pensar que é essa coisa.  Por isso, pensar no final do mundo, no dia 31 de Dezembro de 1999, no holocausto,… que vamos morrer todos queimadinhos porque o buraco do ozono vai ficar muito grande é só um pretexto para te dizer:  Olha para mim hoje porque isto vai acabar amanhã.  Ao menos aceita este último beijo porque é de Amor.  E eu quero que o meu pénis voe, porque quero ser livre, ou penso que sou livre, ou pensava que se ele voasse eu também voava.  É pénis porque há orgasmo e há orgasmo em voo para outro mundo onde grito e rio-me.

 

Miguel Moreira

 

01 Agosto - 23h00

Convento de S. Bento da Vitória, Porto

 

 

1998

 

1999...E O PÉNIS VOADOR!

 

Ficha Técnica:

Autoria - Miguel Moreira

Direcção - Miguel Moreira (Fragmento)

Assistente de Direcção - Ana Vicente (Fragmento), Sara de Castro

Espaço Cénico - Jorge Moreira

Elementos Cenográficos - Nuno Melo, Nuno Miguel

Dramaturgia - Nicolas Brites, Ana Vicente, Miguel Moreira

Desenho de Luz - Celestino Verdades

Desenho de Som - Fernando Figueiredo

Música original - Fernando Figueiredo, Boomerang, Carlos Bica

Figurinos - Sophie Fernandes

Movimento - Félix Lozano

Intérpretes e Co/criadores - Amílcar Azenha, Carlos António (Fragmento), Pepe Velasco (Fragmento), André Louro, Carla Ribeiro (Fragmento), Amândio Pinheiro (Fragmento), Susana Vidal (Fragmento), Clara Marchana Gonçalo Amorim (Fragmento), Ana Brandão (Fragmento), José Pedro Garcia, Nuno Patrício, Henrique Figueira, Ludgar Lamers (Fragmento), Luís Câmara, Hugo Xavier, Luís carolino, Maria João Pereira (Fragmento), Daniel Morgado, Marta Ferreira (Fragmento), Hugo Meneses, Sandra Barata

Design Gráfico - Rui Lopes Alves

Fotografia - Tânia Simões

Vídeo - Ivo Ferreira

Pesquisa Literária - Susana Durão

Direcção de Produção - Ana Alves

Produção Executiva - Filipa Hora, Tiago Costa (Fragmento), Luís Câmara

 

Memória descritiva:

“Quando isto acabar ficarão os sexos a voar?” No final de 1997 resolvemos partir deste ponto. O mundo em 2000 acabava e ficavam os sexos a voar. Fomos para o Rabaçal fazer o primeiro estágio. Ao frio, à chuva, dançámos, corremos. Queríamos outro teatro. Com suor, sangue. Com verdade.

Andámos um ano a trabalhar, a experimentar. A descobrir quem éramos. O que seria então o nosso teatro? A nossa maneira de viver?

 

Por dentro e por fora.

 

A passagem do milénio. O fim do mundo. Um pénis que ganha asas e voa. A esperança e os desejos.

 

Há mais de um ano, surgiu a ideia. Vaga, mas compreensível. As pessoas juntaram-se. Velhos conhecidos, outras apresentações. Começou-se com pouco. Uma vontade de falar, escutando.  O corpo que teimava em mexer -se. Corria- se muito. Por fora, a tentar compreender o por dentro. O amor e o tempo. A falta. As pessoas continuavam a correr. E pelas linhas iam encontrando-se, tocando-se, descobrindo-se. Num estúdio negro, as pessoas iam desaparecendo, outras ficando. Sempre a correr.

 

Dezembro de 1997.  Aproxima-se a data decisiva. A passagem do ano. A única que temos antes do espectáculo acontecer. Aproveitamos para estar juntos. Para viver essa iminência da mudança. Partimos para o norte. Rabaçal. Uma casa estranha. Espalhados pelo chão, tentávamos dormir, tentávamos perceber. Uma aldeia estranha. Uma só rua. Procurávamos e encontrámos. Fundámos o templo do Falo.

 

Construímos pilas de barro. Era a primeira vez que contactávamos com o nosso deus. O culto do Falo desenhava-se. Continuávamos a correr. Com chuva, com vento. O desespero surgia, talvez por compreendermos finalmente o que seria o fim. Procurávamos e encontrámos. As pessoas estavam juntas. Numa aldeia com uma rua. Um café. Um talho. Queijos. Juntos, perdidos e achados, nunca sós. O silêncio do acordar de manhã e todos ainda dormirem.

 

Voltámos a Lisboa. Uma Lisboa vista através do rio. Voltámos. Mas as coisas não eram mais as mesmas. Este fim do mundo não era mais urbano, era outra coisa. Desenhava-se um espaço emocional fundado na intimidade imposta por uma aldeia. Soube-se: onde quer que estivéssemos, a aldeia seria transportada connosco. Ainda não sabíamos que aldeia seria esta. Duas certezas: haveria um talhante e queijos.

 

Ano de Exposição Mundial. As pessoas dispersavam. Já não sabíamos quantos éramos. Parecíamos muitos. Mas apenas alguns ainda corriam. Talvez uma estranha fé se apoderasse dos que ficavam. Tínhamos dúvidas e isso fazia-nos continuar. Este trabalho não se faz com certezas. É só preciso continuar a correr. Ao som do David Bowie, dos ABBA. Num palco que não era nosso. De fora, não parecia um palco. Mesmo no linóleo, conseguia-se entrever a terra molhada do Rabaçal.

 

Parecia já tanto tempo passado. Improvisações em cima de improvisações. Nada parecia ficar. Agora, sei que ficou. Das pessoas que desapareceram, ficaram os rostos, os corpos, as vozes. São pessoas desta aldeia. E outras chegavam e corriam também. Lentamente, foi sabendo quem ficaria na aldeia até ao fim.

 

Os meses passaram. E também corriam. Maio, a Expo começa. Ao mesmo tempo, a aldeia existia, alheia ao passar do tempo. Só o fim é que interessa. A aldeia, cada vez mais estranha, cada vez mais familiar. A linguagem entre nós é diferente da do resto do mundo. Uma comunicação física, musical, espiritual. Vindos de Lisboa, do Porto, do Algarve, de Madrid, da Andaluzia, da Alemanha, éramos ainda da mesma aldeia. Conhecíamo-nos. E, por isso, era fácil não nos olharmos. Reunidos, criávamos algo muito mais semelhante à solidão e à ausência do que ao amor completo. Agora, não era vago. Era real. Era a Vida exibindo o trago da sua estranheza.

 

Nove pessoas encontravam-se de manhã. Era tempo do confronto com o exterior. Afinal, ainda era teatro o que fazíamos. Como resistiria esta aldeia à visão pública, ao olhar estrangeiro? Criou-se um fragmento da peça total, ainda em aberto. Um fragmento que seria por nós entendido como algo que ia acontecer uma semana antes do final do milénio. O culto do Falo apresentava-se. O símbolo do nosso Deus estava já construído. Era ele o objecto da esperança, abria-nos o caminho para o horizonte da felicidade. Mas era só isso. Pois na aldeia o que imperava era a ausência, o prazer artificial de um jogo em que não há entrega. Corríamos. Um grande desespero. Ainda é cedo.

 

No primeiro dia de Agosto estávamos no Porto, para o Festival X. Era o tempo do Fragmento. Um espaço novo, uma rua com crianças e gente com um olhar curioso e incómodo. Temos dúvidas. Aquele não é o nosso espaço. Mas a noite chega e, afinal, ainda estamos na aldeia. Os aldeões carregam o seu espaço. A aldeia existe, temos a certeza. Não é o Rabaçal, nem Lisboa, nem o Porto, nem a Expo, nem o Ginjal. A aldeia somos nós. Contactámos com o público e não foi preciso perguntar.

 

O tempo corre sem a aldeia durante quase um mês. Ao voltarmos a encontrar-nos sabemos que é tempo de encarar o fim. 0 fim do milénio. O fragmento deixará de sê-lo para passar a fazer parte de um espectáculo completo. Reunimo-nos. Há o regresso de outros aldeões do início do processo.

Numa noite de Setembro, o imprevisível dá-se. Há choque, há medo. Tememos que tudo mude. É impossível compreender porque é que estas coisas acontecem. Destino e acaso intercalados de uma forma estúpida e brutal. Desconforto e tensão pela impotência perante a vida. Mas há esperança. E o quadro aparece-nos muito mais negro do que realmente será. O Miguel torna-se uma espécie de Fénix renascida. Tudo corre pelo melhor.

 

De volta à aldeia, em finais de Setembro, apresentamos o Fragmento na Expo. 0 Miguel está lá. Estamos lá todos. E é bonito. A aldeia continua em nós. É altura de continuar. O tempo ficou muito mais escasso. Até Dezembro temos de construir um espectáculo. Mas não é difícil para quem trabalhou durante tanto tempo nesta ideia. Ganha-se apenas mais agitação e adrenalina. De novo, as pessoas. Regressamos da descoberta das pessoas deste fim de mundo. O lado íntimo, o lado auto-biográfico de cada um. Vamos tentar voltar a falar depois de tanto tempo calados. O processo entra no seu lado mais esquizofrénico. O local de ensaios passa a ser em casa, quebramos definitivamente com a nossa própria convenção. Sessões em que nos transportamos para o lado mais íntimo da aldeia. Uma câmara filma. Há boas e muitas razões para o fazer. As coisas surgem com uma velocidade inesperada. Talvez pela extraordinária capacidade dos intérpretes. Mesmo quando resistem, eles já estão Iá.

 

Brevemente, voltaremos ao local habitual de ensaio. Este criado, basta retocar. De novo, o confronto estará aí.

 

São tantas as histórias possíveis, apesar de ser só uma. A história do Útero e do Pénis Voador. Pergunto-me como foi possível continuar, insistir. Foi uma questão de fé. Enquanto Iá estávamos, parecia que estávamos sempre a mudar, sempre a recomeçar do zero. Mas afinal estamos exactamente no mesmo ponto em que começámos. O pressuposto é o mesmo. As dúvidas continuam. Não há tranquilidade. Permanece a vontade de expor o desconforto. A vontade de nos descobrirmos e de descobrirmos o outro. O mistério é infindável. A busca nunca cessa. O pénis voará e a nossa esperança será real. Mas, concerteza, não pararemos de correr.

 

Ana Vicente

 

Texto do Programa a falar do processo de Dezembro de 1997 até à estreia em Dezembro de 1998. Estreou no Espaço Ginjal