2006 - 68


Direcção - Miguel Moreira

Interpretação e co/Criação - Marta Silva e Romeu Runa

Grafismo - Sofia Pimentão

Estilhaços de um processo:

Iniciámos a  pesquisa para este trabalho no Colina 2004. A ideia inicial centrava-se no deserto. O local para onde fogem todos os homens? O deserto era o “Acto sem Palavras” de Beckett. O homem inadaptado ou o homem que precisa de se isolar para mudar, para viver.

 

“Fala de tábuas penduradas em declive, que tremem. Fala da presença de água. A água como elemento fundamental a encher os baldes que pendem sobre as tábuas. Vídeos. Fala da relaçăo com o público. De pensar o público e se relacionar com este, de que modo este pode estar no espectáculo, fazer parte do espectáculo, da dramaturgia. Fala da construçăo cénica que quer construir para criar um drama. Fala da reescrita desse eterno retorno as eternas questőes, aos mesmos temas. Fala de querer situar-se num teatro de ficção, que conta histórias e fazer nascer um momento de intimidade no meio do maior caos que se possa instalar. Fala que se prepara para construir uma manta de retalhos com pretensão a ser uma peça.”

Cláudia Galhos (texto para Colina 2004)

 

Resultou numa apresentaçăo com Annabelle Bonnery e José Wallenstein, com música de Alberto Lopes e estrutura cénica de Barroso no Colina. Resultou também num vídeo com Marta Cerqueira que mais tarde se iria transformar na peça Auto-Retrato.

 

Primeiro comecei por atirar dardos para um alvo (primeira acção no Colina). Sabia que queria pensar num homem. Um homem que passadas várias horas já não quer atingir o alvo. Quer ser transportado para o infinito. Para o espaço desconhecido.  Vi corpos a falar. Já que as palavras não ecoam no deserto. A garganta tende a não deixar de estar seca. O homem com a garganta seca que já só fala com o corpo. O homem no deserto a fugir de si próprio. Nessa fuga encontra a luta, a guerra. Ao mesmo tempo que comecei a ver o homem sozinho, ouvia esse mesmo homem a dar tiros. O homem que pensa que a paz se constrói com a guerra. O homem em permanente guerra.

 

Viver com paixăo, viver com prazer, viver com utopia, é cada vez mais uma impossibilidade numa sociedade que segue os ensinamentos do romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, sabendo que a estabilidade social só é viável pela impossibilidade da emoçăo e do desejo.

Jorge E. Silva

(artigo sobre o Maio de 68, retirado do sítio xxxxx)

 

Combinámos falar. A São Castro (inicialmemente pensada para o projecto), o Romeu Runa e eu. Ou não falar conforme fosse nossa convicçăo. Falar através de mensagens de email ou sms, falar ao telefone. Falar ao vivo. Registei este material:

 

miguel diz:

mas imagina que me estás a relatar a performance surpreendente que viste hoje

miguel diz:

o que me dirias?

São diz:

que entrei numa caixa cheia de borboletas, estava lá alguém, disseram-me um poema e deram-me um beijo

miguel diz:

e como foi o beijo?

São diz:

Carinhoso

miguel diz:

mas de amante ou de irmão?

São diz:

amante carinhoso

miguel diz:

e que tipo de poema?

São diz:

algo como al berto , herberto helder

as pessoas são diferentes

São diz:

provavelmente deveria existir uma pergunta simples , mas que evidencie o que a pessoa poderia gostar de ouvir

São diz:

essa pergunta era feita logo no inicio

São diz:

e depois consoante a resposta, o intérprete saberia o que fazer para melhor chegar àquela pessoa

 

Fui buscar esta descrição e inconscientemente transformei-a na peça “Inside”.

 

Achámos a peça neste poema:

" É um diálogo um pouco desesperado

entre um homem e uma mulher

deitados sobre um leito com uma janela aberta

para os astros e as árvores

O homem estava em silêncio dominado

pela sensação da nulidade

e a mulher falava-lhe com uma intensidade

fremente e ansiosa

para restabelecer a intimidade de uma afectuosa sintonia

libertando-o do peso obscuro da alteridade do nada

Através da janela um frémito uma respiração no espaço da noite

animavam a força da palavra da mulher

e o homem sentia cada vez mais

no seu silêncio a relação vital entre o movimento e a imobilidade

Ela respirava a terra profunda e no meio da noite

uma aldeia vermelha

Tudo lhe parecia iniciático a folhagem a lâmpada

os murmúrios da noite

e de vez em quando o canto de um pássaro

acompanhado por outro

Eles pressentiam através do veludo espesso da noite

o segredo do mundo e entre os ramos o fruto maduro

que cintilava com o fulgor do tempo

na sua plenitude e na sua cor

Ambos despertavam com o seu espírito da terra

e na comum intimidade

reintegravam-se numa continuidade perdida mergulhavam

na matéria viva abrindo-se para a profundidade vital

de dois espaços

e embora não gritassem sentiam no silêncio

o grito maravilhoso da vida "

 

António Ramos Rosa

 

Maio de 68. O homem que responde ao desmaio das utopias. Que se questiona. Acerca da pertinência do homem politico que intervêm.

 

O período em redor de 1968 assistiu, por outro lado, a mudanças extremamente produtivas nas artes – foi um tempo em que fundamentalmente se desafiou a noção de arte que informara o período pós-guerra. Pôs-se em causa o estatuto de obra de arte enquanto objecto destinado a tornar-se mercadoria, o estatuto do artista como fonte e proprietário da produçăo artística, o estatuto do museu, da galeria e da crítica de arte como instituiçőes que legitimavam e comercializavam o trabalho dos artistas. Contestou-se o facto de a obra de arte se basear na representação. Foi cerca de 1968 que se inventou um fenómeno ao qual se deu o nome de arte contemporânea”.

In Catálogo “A obra de Arte Sob fogo” inovaçőes Artísticas de 1965-1975, editado por Ulricch Loock na Colecçăo de arte Contemporânea Público/Serralves

 

A problemática central é: as personagens estão num espaço mas tudo é uma ilusão. Já nada resta. Nem a esperança. Estão mortos sem saber.  Ai pegámos em Beckett. Estamos mortos sem o saber. Doi a evidência. Este homem e esta mulher estão mortos sem o saber. A esta ideia de inconsciência total juntamos a ideia inscrita na peça “Moscas” de Jean Paul Sartre. São as moscas que não nos largam. Elas não se vêem. Também estão mortas. Mas nã nos largam nunca mais. Porque nos sentimos sempre culpados pelo que não fizemos.

 

Vimos a obra de Santiago Iadanez. Os auto-retratos sujos. Sujarmo-nos para conseguirmos expressar a nossa verdade. A mais escondida. Borramo-nos para sermos nós próprios na dor. No medo.

 

Peça estreada no Espaço Land, Lisboa