2005 - Auto-retrato

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AUTO-RETRATO

Direcção e Interepretação Miguel Moreira

Interpretação e co-criação Marta Cerqueira

Texto José Luis Peixoto



Texto de José Luis Peixoto para Auto-Retrato


Eu năo estou sozinho. ao meu lado,

estăo as tardes em que voltava da

escola, mala às costas, a brincar com

os rapazes da minha idade durante

todo o caminho; está a primeira vez

em que te vi, os teus olhos a sorrirem,

a tua pele; está toda a vida e está

um homem cansado e velho, sentado

no banco de um jardim, demasiado

tímido para se aproximar do grupo

de homens da sua idade que jogam

às cartas; está um espaço de terra lisa

onde estăo os lugares que esse homem

demasiado cansado e demasiado velho,

foi obrigado a deixar para sempre;

está uma árvore, ramos, lâminas, tempo,

que cresce e se afunda e se espeta no céu.

 

fios de sangue escorrem pelos ramos dessa árvore.

 

sinto-os nos meus braços.

 

eu năo estou sozinho. grandes coisas

acontecem em países distantes por causa

de mim. uma palavra minha, uma palavra

que poderia dizer

agora,

ou agora,

é repetida por mil vozes em todo o mundo neste

próprio instante em que a digo. cada um dos

meus gestos, como este

ou este

săo repetidos por mil măos muito longe daqui.

estou acompanhado por pessoas que matam

e que morrem a sentir exactamente o mesmo

tédio, o mesmo nada que sinto aqui, neste

momento assinalado. estou acompanhado por

Pessoas sozinhas que fazem exactamente as

mesmas questőes e que dizem exactamente eu

como se soubessem que estou aqui a dizer eu

e a sentir exactamente cada grăo de poeira,

cada pétala daquilo que sentem.

 

eu năo estou sozinho. tenho a luz deste candeeiro

pousada sobre o chăo, os lençóis desta cama e todas

as suas memórias inúteis, esta cadeira, as sombras

derretidas sobre os objectos, o medo às vezes, o silêncio

todo e o medo às vezes.

 

eu năo estou sozinho. ao meu lado,

e dentro de mim, e à minha volta, e

a atravessar-me, está uma árvore que

cresce gigante para onde todos estiveram

com a ilusăo de serem únicos. Estăo ramos,

raízes cravadas na minha carne, e lâminas, e

todas as idades que conheço, todas as idades que

conseguir nascer ainda, todas as idades que

conseguir morrer. ao meu lado, dentro de mim,

à minha volta, a atravessar-me, está uma árvore

toda feita de tempo.

 

fios de sangue escorrem pelos ramos dessa árvore.

 

sinto-os nos meus braços.

 

Estreada em Cacilhas na rua na Mostra de Teatro de Almada

Apresentada no Princípe Real e na casa