2012 - Europa

A partir da obra Europa de Javier Nuñez Gasco e da obra de Berlinde De Bruyckere

“Chamo-te Europa, como chamo terra, lugar. Como chamo a minha casa. Como me chamo a mim por um nome. Como diferença.” Europa vem convidar à reflexão das jovens mentes e do público em geral sobre o significado da identidade, o significado de um corpo num lugar. Num primeiro momento os artistas invadem a Escola , desenvolvendo ações disruptivas nos intervalos e despertando alunos e professores a pensar conceitos como o sentimento de pertença, o território ou a cidadania. Quebra-se o quotidiano para desarrumar pensamentos e desconstruir dogmas, usando a dança como forma de chegar ao outro para o questionar e reconhecer. O segundo momento desta criação acontece na sala de teatro, através de uma criação inspirada na obra Europa de Javier Nunez Gasco e na obra de Berlinde De Bruyckere.

texto adaptado do programa do Teatro Virginia em Torres Novas


Em Europa, de Javier Nunez Gasco, um vídeo filmado num único plano fixo posteriormente invertido em sentido de leitura, Núñez Gasco reconstrói - a golpes de faca e por ordem cronológica - numa das paredes de um convento do Século XVI, o actual desenho do mapa político da União Europeia. O vídeo, inicia-se com a imagem do artista absorvendo, com a mão direita, pingos de sangue que mancham zonas da parte central daquilo que nos parece ser o desenho de uma Europa em ruínas, como se estivesse curando uma ferida anteriormente aberta. De seguida, cravando passo a passo a faca na ancestral parede do convento, este vai reparando os destroços e restaurando as várias camadas dos supostos países, numa tradução invertida do violento e conflituoso processo de construção das fronteiras sócio-políticas da Europa.

in site "Espaço do Tempo"

 

Desde o inicio dos anos 90 que Berlinde De Bruyckere tem vindo a trabalhar com cobertores – cobertores de lã, símbolo de agasalho e protecção – como o material utilizado nas suas esculturas e instalações. Eles simbolizam para a artista, não só peças de agasalho e abrigo, como também vulnerabilidade e medo. Medo que faz com que as pessoas se desloquem sob cobertores, e vulnerabilidade ligada a situações de frio, doença, catástrofes naturais e guerra. São estas as imagens que diariamente nos são transmitidas pelos meios de comunicação, provenientes da Somália, do Ruanda ou do Kosovo: imagens resgatadas dos focos de violência que obrigam as populações a fugir, a esconderem-se ou a refugiarem-se do frio. As vítimas são envolvidas em cobertores. O sofrimento está encoberto. No estúdio de De Bruyckere, recortes de jornais com fotografias a lembrar estes cenários coabitam pacificamente com os lembretes do dia-a-dia. Imagens onde a tristeza e a beleza parecem competir ao chamar a nossa atenção.
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Uma das primeiras esculturas da artista com cobertores, consistia numa pilha simples de cobertores dobrados, colocados sobre um precário estrado de madeira. A base de madeira que assenta irregularmente, enfraquece o equilíbrio da pilha de cobertores que foi colocada de uma forma ordenada. Dekenhuis (House ofBlankets) de 1993 é uma estrutura de metal que foi coberta por cobertores. Um dos cantos da estrutura permanece descoberto, mas a House of Blankets pretende ser inacessível, unicamente sugerindo a ideia de abrigo. De acordo com Berlinde de Bruyckere, a utilização de cobertores no seu trabalho, significa: “Para mim, um cobertor é um símbolo de segurança. Possui uma alma que normalmente tem uma conotação positiva. Um cobertor aconchega-te; sentes-te como a criança sentada em casa enquanto chove lá fora. Também utilizo o cobertor como um objecto negativo. Podes dar a alguém tanto amor e segurança que o sufoca, em que ele já não se possa encontrar a si próprio. Ficar sob uma pilha de cobertores pode desorientar! Gosto de brincar com essa ambiguidade no meu trabalho.”
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É com a dualidade entre amor e sofrimento, perigo e protecção, vida e morte que, invariavelmente, trata o trabalho de Berlinde De Bruyckere. Na sua exposição de 1995 no Museu Middeheim, intitulada Innocence can be Hell, criou, entre outras coisas, contentores abertos cheios de pilhas de cobertores (Kooi 1995). Alegremente coloridos, mas, ao mesmo tempo, de aparência macabra.: um transporte de emergência de ajuda humanitária, que nunca chegaria ao seu destino. A sensação de impotência produzida por este trabalho, aparece repetida nas várias figuras de mulheres que apresentam os braços e as pernas destapados, mas cujos corpos se encontram escondidos debaixo de cobertores, em posição de repouso. Nesta exposição, ela colocou uma dessas figuras numa árvore, que sentada num ramo agarra o vigoroso tronco. A artista compara o isolamento em que a mulher se encontra ao da criança que se esconde e que pensa: “Se eu não os vejo, eles não podem ver-me a mim”. Relativamente às suas esculturas “Blanket Women”, a artista acrescenta: “A relação entre expor-se e esconder-se é uma relação que ocorre dentro de uma única imagem. Produzi a imagem da mulher envolta em cobertor pela primeira vez durante o período do genocídio no Ruanda em 1993-1994. Mostro a imagem de alguém que no fundo não quer ser visto. Nesse ponto, eu própria estava ocupada com a questão da essência de uma casa. Para mim, este é o lugar onde nos podemos esconder, ficar sozinhos, sermos capazes de pensar. Então, assisti a pessoas a fugir com um único cobertor a protegê-las, a cobri-las. Foi assim que a imagem me surgiu.

De Pont museum of contemporary art, Tilburg, Holanda
(traduzido por Fernanda Valente)

in blog "Das Artes Plásticas"


DIREÇÃO Miguel Moreira e Romeu Runa
INTERPRETAÇÃO Catarina Félix e Vânia Rovisco
PRODUÇÃO Útero Teatro
MÚSICA Pedro Carneiro
DESENHO DE LUZ João Garcia Miguel
COPRODUÇÃO Útero Associação Cultural com Guimarães 2012 Capital Europeia da CulturaJoão Garcia Miguel Unipessoal(Lisboa), TAGVTeatro O BandoTeatro-Cine de Torres VedrasTeatro Virgínia e Teatro Aveirense.

Apoio: Câmara Municipal de Almada

RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS Teatro O Bando (Palmela), Uferstudio (Berlim) e Escola Secundária das Taipas (Guimarães)
FOTOGRAFIA DE CENA João Peixoto
APOIOS/AGRADECIMENTOS Teatro PragaPedro Carneiro