2002 - Parede

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Parede, o texto e a peça

Qual é a validade de um texto dramático? Eis uma questão que, desde que comecei a trabalhar com o Útero, me dominava. De que forma é que o texto pode ser um dos elementos enriquecedores no teatro sem ser necessariamente castrador ou limitativo? Todos já vimos literatura magnífica em peças medíocres, mas a verdade é que já vimos peças muito boas com textos excelentes que não cabem simplesmente numa categoria literária. Era esse último ponto que me dominava, ou seja saber que o teatro poderia ser muito bom tendo o texto como base. Não é razão para muito espanto, claro. Desde sempre se criou teatro a partir de textos dramáticos; aliás essa tem sido porventura a sua forma mais comum. No entanto, algo nesse processo caía por terra quando confrontado com as necessidades dos nossos intérpretes, dos nossos criadores, a até do nosso tempo. De alguma forma, o texto criado para teatro deixava de ser eficaz nessa assumpção. Porque o teatro passou a procurar, por si mesmo, a sua própria linguagem, e essa apenas surge no plano concreto da criação teatral.

Esta será talvez uma falsa questão, pelo menos aqui. Introduzo-a simplesmente para me situar nas minhas próprias opções, nas minhas ambições e limitações como escritora e, por outro lado, como co-criadora de um objecto teatral concreto.

Eis o busílis: o Miguel Moreira convidou-me a escrever um monólogo para uma mulher, a ser encenado por ele numa próxima produção uterina. A justificação para este preâmbulo vem já aqui, por que é que aceitei escrever este texto? Não é uma questão leviana, como sabemos. Por um lado, vem a pretensão genuína de escrever a priori para teatro, mas, por outro lado, vem a pergunta pela legitimidade dessa pretensão. E, nesse diálogo, encontrei alguma coesão para as minhas dúvidas e contradições. Para alguém que quer fazer teatro, escrever um texto não é suficiente, é até bastante escasso. Escrever um texto é escrever um texto, ainda que se tenha em consideração a forma teatral. Escrever teatro é, para mim, escrever em teatro, isto é, exercer o poder humano da criação de linguagem. E a linguagem teatral é originada pela expressão prática dos corpos e do tempo que reúne em si acaso e precisão.

Escrevi Parede como escritora, mas apresento-o como co-criadora de um objecto final que ainda está por ser. Assim, o que temos neste Parede é um pedaço bruto que está a milhas do objecto a ser criado. E não falo simplesmente de possíveis alterações ao texto (que ainda não sei se irão ocorrer ou não), mas sim de um objecto novo, que resistirá e alimentar-se-á desse texto com a força de quem quer nascer.

A brutalidade desse parto advirá do próprio processo teatral e não do processo de escrita. É assim que conheço o teatro, é assim que o quero, e é por ele que me debaterei na construção desta peça. Não por um texto feito, impresso, vivo no acto de ser lido, mas ainda morto como objecto teatral. E assim respondo à minha pergunta inicial, a validade de um texto dramático só existe, para mim e no teatro em que acredito, se aquele for tratado como mais um objecto plástico para a criação. Um objecto ao lado dos outros, a manipular, a subverter, a cortar, a mastigar, e de algum modo a estragar, se isso convir à própria voz teatral em causa.

É com satisfação que entrego um trabalho feito, mas é com orgulho que o vejo escasso ainda para o que esta peça pode ser. O mesmo orgulho e expectativa que detenho quando o Útero inicia um novo projecto. Desse trabalho surgirá o que este Parede ainda não é, a saber um texto dramático, realmente em linguagem teatral.

Até aqui falei sobretudo com furor uterino, isto é como co-criadora de um projecto que se desenha. Agora, falarei como autora desta matéria criada, num esboço de memória descritiva deste processo (não teatral, insisto) que foi escrever Parede.

Parede nasce da necessidade de orientação. Existe uma mulher, que provavelmente nunca saberemos quem é, a debater-se com o fim de uma história de amor, que também não conhecemos. Uma mulher sozinha que apenas se consegue situar na ausência do amor que escapou. A pergunta é: como continuar? Como é que se insiste na vida reconhecendo nesta apenas frustração e vazio? Que tipo de prazer é o do amor para que, ausente, mate quaisquer outras expectativas?

Não é uma história de amor comum. Parte de uma perspectiva, ainda que de forma não óbvia, de amor transgressor. Paixão fora da norma, paixão imprevista e irresolúvel. O que podem fazer dois corpos que se amam, ainda que dominados por um sentido de erro, senão amar-se? Esta é a questão e a resposta. A mulher deste Parede, a mulher que fala, escolheu o amor. E anulou o erro da resposta. Escolheu a coragem, mas viu-se defraudada por essa opção. Dessa coragem nasce a angústia em viver, e é nesta que o texto a encontra.

Não queria deter-me demasiado com questões psicológicas, pois não me atrai essa

demanda nem julgo que o texto as contenha. Há questões existenciais, constitutivas, que arrastam esta nossa “protagonista” na descida aos infernos que é o seu diálogo interior.

Não saber parar de falar, não conseguir abandonar o vício do desejo, ser incapaz de ouvir vozes do exterior, eis algumas características do coração despedaçado. Não se trata de um coração que simplesmente quebra, trata-se de desespero que se auto-alimenta dessa quebra, desse desnorte, sem nunca conseguir sair daí.

Esta “personagem” é uma multiplicidade de sensações, mas estas são indissociáveis porque presas a um único desvario. Aquilo, aquilo, aquilo. E aquilo é o incompreensível. O incompreensível que tenta desesperadamente interromper. Desde a surpresa inicial do amor até à ruptura dele, só se quer compreender. E dessa tentativa nasce a frustração e até a consciência de que, mesmo que tudo esteja dominado, a dor persistirá, a memória insistirá no primeiro beijo, nos momentos de amor. E nenhuma palavra nos fará sair dali.

Por isso parede. Ela é a parede que não se altera por muito que se empurre, a parede com que fala, a parede ela, a parede o seu amor ausente. Mas parede é também a memória do amor e do corpo. A parede como o primeiro momento de contacto, em que as duas mulheres pela primeira vez se juntam, e à qual insiste em voltar. Uma luta de mente e corpo na disputa do sofrimento que é só um.

É uma projecção. Uma projecção dela de si própria, dos seus sentimentos, mas também uma projecção da outra mulher, a ausente. Não há uma identidade à qual nos possamos agarrar, pois ela é um ser espartilhado, dissociado do seu próprio eu.

Um outro desafio para mim, este a nível formal, foi o de integrar essa incapacidade de identificação no próprio acto teatral. Uma personagem que não se reconhece, mas que ainda assim sabe-se como objecto de representação. O acto teatral exige o reconhecimento de uma identidade. A personagem de ficção exige ser vista, lida, ouvida, para existir. Essa é a busca desta mulher, ser visível para existir, que da quebra do silêncio venha a existência e, de algum modo, a identidade.


Créditos

Direcção: Miguel Moreira
dramaturgia: Alberto Lopes, Miguel Moreira
Texto: Ana Vicente
Espaço Cénico: Alberto Lopes, Miguel Moreira

VÍDEO
Direcção: Miguel Moreira
Produçao: Eduardo Henrique
Desenho de som: Alberto Lopes
Música original: Gabriel Gomes, The Gift
Dobragem: Gabriel Gomes, O Circo a vapor
Luz: Carlos António
Filmagens Madrid: Carlos António
Interpretação: Maria João Falcão

 Ao vivo

Interpretação – Teresa Alves da Silva / Carla Ribeiro / Adriana Queirós 
Luz: Celestino Verdades
Figurino: Eduardo Henrique
Mestra de costura: Teresa Louro