2010 - Regina


“Na Estética e no pensamento queer leio o novo, a margem , a transgressão. Leio o espaço onde eu sempre quis estar”. Miguel Moreira

 O corpo e os seus ícones. Esta é a questão central de Regina – The Ritual wedding. Um trabalho que pisa territórios de um ritual enraizado e que convoca o público para uma experiência nova, apelando ao interdito e a uma proximidade entrei  íntimos. A casa. Antes do casamento. Depois, o encontro entre os noivos, entre Regina Fiz e Miguel Moreira. A mobília - escultura de Cassiano Branco - arquitecto modernista português,  ao estilo Art Déco, e outros símbolos da cultura portuguesa como o vestido, o véu, o ramo, a ourivesaria popular tradicional. Uma simbologia que reside no imaginário colectivo. Que nos diz respeito. Que nos associa  com o momento.

Regina é também um outro discurso : a transformação e o pensamento querr associados a uma ideia de  uma sociedade livre. O espaço do corpo e da liberdade em uníssono. Uma peça que é o resultado e o processo. Resultado de uma experiência de vida – a de Regina Fiz – e de um processo de luta contra as normas sociais e politicas segregadoras. Um processo que questiona a identidade. Quem sou eu? Que relação existe entre mim e o meu corpo? Neste sentido, a obra levanta questões, rompe com a ordem.

Regina é um discurso do pós-modernismo que destabiliza a imagem do hegemónico, da estabilidade, da heterossexualidade. Um discurso que abre espaço a subjectividades outras. É Regina que transporta Miguel nos seus braços e o deita – uma inversão clara da figura do noivo que transporta a sua noiva para o leito nupcial. A rejeição de uma visão totalizadora e essencialista da linearidade dos comportamentos. Uma nova cultura do sexo que implica a recodificação da experiência. Há outros corpos que tocam o corpo de Miguel, não só o de Regina. Femininos e masculinos. Ambos lambem o corpo nu e deitado, coberto do que parece ser chocolate e que abre espaço à equivalência de todos os corpos sujeitos. O vazio ontológico da identidade e das suas politicas. Em Regina – The Ritual wedding a masculinidade possui em si mesma a feminilidade. O discurso da sociedade contra-sexual e das estruturas de poder alternativas. Proliferam corpos, vontades, deleites e gramáticas de intimidade. Uma linguagem de teor pós-ponográfico que põe em causa a validade do “género”. Uma multiplicidade de corpos que combatem a construção instituída de “anormalidade”.

O que reconheço de mim aqui e agora? Esta proximidade necessária faz com que a peça tenha sido pensada para ser apresentada a um grupo reduzido de pessoas, não mais de cinquenta. Ganha-se a universalidade sem que se perca o intimismo.

 

Texto de Paulo Pinto para o programa do Festival  Guidance 2013


O nosso primeiro encontro foi em palco na peça do Paulo Castro. Eu, como público, fui a palco depois de intervir na peça. Ganhei o direito de beijar a estrela da noite. Regina. Aproximou-se de mim, beijou-me. Um beijo longo. O público aplaudiu. Desse beijo surgiu a vontade de a conhecer e poder estar mais perto dela. Pensei em mim, no meu corpo, na sexualidade, no género. Na estética e no pensamento Queer leio o novo, a margem, a transgressăo. Leio o espaço onde eu sempre quis estar. 

Direcção Miguel Moreira/Útero

Co/Criação Regina Fiz

Interpretação Regina Fiz e Miguel Moreira

Pianista Joana Gama

Construtores Taras, Micael

Apoio à direcção  Tomé Simão Dionísio/Manuela Marques (cantora na primeira versão)/Catarina Felix

Guarda Roupa Teresa Louro

Fotografias  Inês DÓrey, João Peixoto

Regina

Residências artísticas: Espaço Land (www.landteritorio.com)

Suporte: MC/DGArtes, Câmara Municipal de Almada, Fundação Gulbenkian

Apoio Centro Cultural Vila Flor/ Guimarães

Agradecimentos Centro Cultural Vila Flor/ Guimarães, CAAA, Marta Oliveres, Sandra Rosado e Romeu Runa

Espectáculos

Lisboa - Espaço land

Liverpool - Tranny Hotel

Guimarães - Festival Guidance

Bruxelas - Volksroom

Berlim - Uferstudio

Madrid - OffLimits