2001 - Último Verão


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O ÚLTIMO VERÃO

 

Ficha Técnica:

Direcção e dramaturgia – Miguel Moreira

Escritor - Pedro Paixão

Espaço Cenico – Miguel Moreira e Santiago Cal

Figurinos – Ana Salazar e José António Tenente

Desenho de luz – Celestino Verdades

Banda Sonora - José Fernando com a colaboração de Miguel Moreira

Grafismo –  Rute de Castro e Pilar Mayorgas

Co-criadores – Ana Brandão, Avelino Chantre, Boris Nunes, Carlos António, Inês Rodrigues, Miguel Moreira, Rita Calçada, Romeu Runa, Santiago Cal.

Produção – Tiago Costa

 

 

Memória Descritiva:

A absoluta tristeza, não por isto ou por aquilo, mas de estar aqui, de continuar por aqui, de começar nem acabar, de continuar só, é difícil de dizer.”

Volto-te as costas para que não me possas ver, para que eu não saiba, enfim, da tua humanidade, da tua humidade, dos teus olhos em mim como se eu realmente existisse. Volto-te as costas para que, enfim, percebas que não estou cá, que provavelmente nunca estive, que não sei o meu nome nem reconheço o teu. Não reconheço o teu.

Começámos como toda a gente, suponho. E, nos teus olhos, julgava poder existir.

Até ao tempo fatídico da loucura, dos teus braços a ausência, dos meus lábios a frieza. Ouve, ouve bem, não estou cá. Mantenho o meu silêncio.

 

“Último Verão” é a próxima produção do Útero-Associação Cultural, com encenação de Miguel Moreira e texto de Pedro Paixão. Começou por ser uma ideia de musical, o sapateado como reacção do corpo ao desespero. Um corpo no limite do seu mal-estar, da sua angústia, que precisa bater com os pés, para ainda saber que existe, para reagir ainda ao movimento, à dor e ao prazer. O corpo como matéria plástica, como tem sido sempre opção das encenações uterinas. A dança como a não-dança, o musical como o não-musical, apenas esse toque para a realidade, esse wake-up call, alarme brutal de uma existência inviável.

 

A primeira versão do texto traz-nos um homem na sua loucura, na margem de um salto para o fim de tudo, a morte, o suicídio. Um homem com uma mulher e um amigo, únicas portas para uma realidade que não existe mais, mas que ainda se quer recuperar. Porquê?, apetece perguntar. Porquê ainda tentar, mesmo depois de ver que já nada faz sentido, que tudo num instante se pode transformar em nada?

 

amor. Um texto é só um ponto de partida para a criação uterina, e um pretexto para a equipa criativa viabilizar a sua própria visão. De três personagens, passa-se para um elenco de oito intérpretes, três mulheres e cinco homens; de um homem protagonista passa-se para uma mulher.

 

Do texto criado por Pedro Paixão, nasce a reflexão para Miguel Moreira, e vice-versa, e delas nasce uma outra coisa, novas possibilidades sustentadas por uma mesma visão de desespero, mas também de

 

É essa a mulher que submerge para a loucura, investida de uma lucidez mascarada de depressão. Um marido e uma amiga acompanham-na. E desse triângulo, nascem novos triângulos, outros vértices, outras possibilidades para a loucura e para o vício do desejo. O desejo que ajuda ao mergulho, o desejo, sempre vão, que ilude a própria cegueira do vazio, até não restar nada, nem luz, nem cor, nem outro, apenas este eu do qual me quero livrar, que insiste em permanecer por muito que se pense em corpos pendurados no ar por cordas improvisadas.

 

Tenho um amor, um só amor. No entanto, esqueço-me dele. Vou ter contigo e desmascaro essa máscara de menina bem-comportada. Estou perdida do meu corpo e quero que me leves de novo para lá. Para esse porto no qual me refugio quando não sei da minha alma. Esqueço o meu amor, esse anel que carrego no dedo, esse círculo de confiança, que tanto cumpre a fidelidade como a infidelidade. Por que é que não conseguimos estar quietos? Se ao menos fosse suficiente olhar, olhar e nada mais, “tocar a beleza com os olhos, porque com o corpo dá muitos problemas”. Ouve, não sei onde estou, mas não estou cá.

 

É também na margem que se cumprem as promessas. As promessas de amor. Nas margens da monogamia, que se carrega com ou sem peso. As personagens/pessoas de “Último Verão” conhecem essa margem, conhecem a vertigem de querer ultrapassá-la, insistem na corrupção de um sonho, fingindo concretizá-lo. Na instabilidade de um corpo que continua a desejar, apesar de morto para o amor, morto para a vida, habita também este “Último Verão”. No prazer reencontrado de um olhar, de estar nu e tocar, de ver cores e corpos que se misturam no extâse e no frenesim, vem-nos o contraste da dor da intimidade. A intimidade como o acto violento de chegar ao outro, por um caminho que não é só nosso, mas de quem o conseguir alcançar.

 

A dúvida assenta também aí, se eu me perco, também esta pessoa que amo pode perder-se, e nessa perda a mesma intimidade se conquista. Outro homem, outra mulher, pode lá chegar, a esse local inabitável que só eu julgava possuir. Mas qual é o nosso lugar, a nossa exclusividade, no corpo, na alma, na intimidade do outro? Que linguagem me torna único, ou simplesmente igual, vulgar, comum? Para perder ou finalmente conquistar o amor.

 

Por não poder controlar o desejo, e a capacidade de retê-lo finalmente num só objecto, confio-me ao acaso, esperando talvez que este seja benevolente, e que ponha as coincidências certas na minha senda pelo mundo. Ainda à tua procura, sempre à tua procura.

 

No caminho do Verão para o Inverno, estes oito corpos vão-se encontrar. Se se perderão as almas, se se reencontra a ternura, as memórias e espaços perdidos, se se perderão definitivamente para a loucura, é algo que neste processo se vai descobrir. Com a ânsia própria da urgência, como sempre no Útero.

 

Ana Vicente

 

Espectáculo estreado e apresentado no Espaço Ginjal

Apresentação no Festival de Teatro  Internacional de Almada